Crônicas

domingo, 11 de outubro de 2015

HISTÓRIA DA IGREJA (BASEADA EM H. JEDIN) – I

Prof Eduardo Simões

A Providência Divina guia a história

         Os desígnios de Deus são tão misteriosos quanto surpreendentes e magníficos em seus efeitos finais. Quem poderia imaginar que da fusão de duas civilizações tão diferentes e distantes uma da outra, poderia florescer uma instituição religiosa tão abrangente e duradoura como a Igreja Católica, ela própria tão misteriosa e espetacular quanto as circunstâncias que a originaram?
         Para não estender demasiado esse relato, tomemos como ponto de partida o centro do mundo ocidental antigo, ao fim da Segunda Guerra Púnica, em 201 a.C., quando a elite política de um povo agrícola, amante do trabalho, prático, voluntarioso, muito apegado á sua cidade e estranhamente cônscio de uma missão universal (1) decidiu que estava na hora de dar uma lição no Reino da Macedônia, que tivera a infeliz ideia de aderir ao lado cartaginês.
Entretanto é importante considerar outro objetivo em mais uma guerra longínqua, muito mais poderoso, mais motivador, que a cultura belicista onipresente,  que, se não chegava aos extremos dos gregos, nem por isso deixava de embalar os sonhos dos adolescentes romano. Não, isso só não bastava para uma elite tão pragmática como eram os senadores patrícios e seus sequazes, que não perdiam de vista a enorme vantagem econômica advinda da conquista do território grego, cortado por importantes rotas terrestres, enquanto margeava as mais importantes rotas marítimas do Mediterrâneo Oriental, por onde circulava uma imensa riqueza. Se as fontes de matéria-prima do Ocidente já estavam garantidas, com a derrota de Cartago, por que não expandir, agora, para o Oriente, de lendária riqueza?
Após a decisão de uma assembleia dividida, ao convite de intervenção de importantes cidades gregas, um exército romano invade a Grécia, e após muitas vicissitudes, graças bom uso de uma arma tipicamente romana: a ação diplomática astuciosa, que dividia o lado oposto, as legiões conseguem uma vitória esmagadora sobre a falange macedônia, encerrando uma curta guerra (200 a 197 a.C.).
A vitória dos romanos na Macedônia, entretanto, rompera o equilíbrio de forças entre as potências do Mediterrâneo Oriental, rebentos opacos, abortos do império de Alexandre Magno, em especial daquele que se tinha como mais capacitado para encerrar os outros sobre o seu domínio: o Reino Selêucida, na Síria, cujo rei, Antíoco III, não tinha motivos para querer a presença de uma potência estrangeira ascendente, numa área que já considerava como de sua natural influência. Ademais, se a guerra com Roma era inevitável, que acontecesse logo, enquanto esta era novata na região, e vinha de uma guerra longa e custosa contra Cartago.
Antíoco toma a iniciativa, em 192, só para descobrir da inutilidade de confrontar o rolo compressor das legiões, que evoluíam, céleres, ao ápice de sua operacionalidade. Em 189 a.C., um exército romano, acompanhado por soldados de cidades gregas aliadas, desembarca na Ásia e aplica uma formidável derrota no exército selêucida, muito mais numeroso. Esses acontecimentos foram vitais para um pequeno povo, que vivia no centro do Oriente Médio, na Palestina, e que vinha a sofrer grandes dificuldades na sua convivência com os dois colossos, a Síria Selêucida e o Egito Ptolomaico, que lhes marginavam as fronteiras Norte e Sul. Esse povo eram os judeus.
Barrados no Ocidente pelo colosso latino, os selêucidas procuraram uma presa menor ao sul, o Egito Ptolomaico, mas nem por isso desprezível em sua capacidade de produzir riquezas desde tempos imemoriais, retomando o caos bélico engendrado pelos generais de Alexandre, os diádocos, após a morte daquele, que não paravam de buscar pretextos para guerras de anexação, desestabilizando áreas comerciais de primeira grandeza, coisa que os rústicos agricultores do Lácio logo perceberam como muito prejudiciais aos seus interesses. Mas como naquele momento, Roma, apesar de seu formidável poder de recuperação, precisava de tempo para se reorganizar internamente e se recuperar de tantas guerras, por isso fingiu-se desinteressada.
O campo de disputa das duas potências helenísticas acabou sendo justo a Palestina, que ficara sob a zona de influência egípcia, mas que possuía algo de que o Reino Selêucida precisava urgentemente para preservar a sua independência política: dinheiro, para pagar as contas da guerra contra os romanos, em especial a nota promissória assinada em Apameia, em 187 a.C., quando do tratado de paz. No seu desespero os reis selêucidas buscaram o caminho mais fácil: saquear templos, a começar por Antíoco III, que morreu na tentativa de saque ao templo de Baal, na Elimaida, não sem antes assegurar, no campo de batalha, a posse da Palestina, tomada aos egípcios.
Por volta de 180 a.C., finalmente, os selêucidas descobrem o caminho para o tesouro do Templo de Jerusalém, enviando para lá um de seus mais importantes personagens, um ministro do rei Seleuco IV, chamado Heliodoro, que, segundo o relato de 2 Macabeus (3,1-40), um tanto lendário, um tanto instrucional, não terminou bem – é possível que ao invés da intervenção de seres divinos tenha havido uma viva e bem-sucedida reação dos judeus ao saque de seu tesouro sagrado, o que explicaria a extrema má vontade e violência com que, daí por diante, os selêucidas os trataram. Tantas vexações absurdas e sem remédio (2) levaram um grupo de valorosos lutadores, chefiados pelo aguerrido patriarca de uma família também aguerrida, os Macabeus, a iniciar uma sangrenta guerra de guerrilhas, que era tudo que os selêucidas não queriam naquele momento, embora não conhecessem outra forma de debelá-la, que não a força bruta, agravando o conflito, enquanto se depauperavam os cofres públicos.
Judas, filho do patriarca, atento à conjuntura internacional, procurou se aproximar dos romanos, que, em 168 a.C., voltaram a atuar decisivamente na região, obrigando, com um ultimato, Antíoco IV a evacuar suas tropas do Egito. Essa aliança era, por sua vez, do interesse dos romanos uma vez que ajudava a criar problemas àquela que ainda era a única potência em capaz de lhe causar problemas consideráveis, além de tumultuar uma área de imenso valor estratégico: a Palestina – o capítulo 8 de 1 Macabeus traz detalhes desse tratado, retocado em outras circunstâncias (1 Mc 14,16-19.24; 12,1-4; 15,15-21), único em sua benignidade e abrangência, o que demonstra o quanto os romanos estavam atentos à importância da Palestina e à especificidade da nação judaica.


                    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ed/Ancient_Levant_routes.png
Wikipedia
O mais importante entroncamento de rotas comerciais terrestres e marítimas da Antiguidade, unindo diretamente grandes centros produtores e consumidores da Ásia Menor ou Anatólia (atual Turquia), Egito, Palestina, Mesopotâmia, unindo-os, indiretamente, a grandes centros produtores e consumidores do oeste da Índia, até a China. No mapa nos vemos, em roxo, o chamado Caminho do Mar ou Caminho dos Filisteus, que saía do Egito, passando pela Península do Sinai, onde ganhava o nome de Caminho de Hórus, pontilhada por uma série de estalagens-fortificações, a um dia de viagem uma da outra, chegando até a cidade de Megido (atual Síria), flexionando-se para leste, até atingir a cidade de Damasco (idem).
Caminho dos Reis, de vermelho, começava em Heliópolis, no Baixo Egito, e atravessava o deserto do Sinai, também protegida por fortalezas, até chegar em Aqaba ou Eilat, de onde seguia para norte, paralelo ao rio Jordão, até chagar em Damasco, de onde seguia para leste, até Resafa, nas margens do rio Eufrates.
Na parte de baixo, do mapa, vemos uma linha marrom, sobre a Península Arábica: é a Rota do Incenso, por onde seguiam caravanas vindas do sul da Arábia trazendo cobiçadas mercadorias não só produzidas na península, como as que chegavam de barco, nos portos situados ao sul, vindas da Índia e da China. Vemos também um traçado marrom, dentro do Mar Vermelho, embaixo, no mapa, que é a variante marítima da Rota do Incenso. A linha marrom, seguindo o Nilo, é uma rota comercial secundária, assim como outros traçados marrons que aparecem no mapa.
Vemos também, na parte de cima do mapa, traços marrons sobre o Mar Mediterrâneo. Eles representam as principais rotas comerciais da navegação de cabotagem da bacia oriental do Mediterrâneo. A mais próspera. A potência que controlasse essas praias controlaria esse comércio.
Como se vê, da terra palestina podiam não brotar leite e mel, mas quem as possuísse poderia comprar quanto leite e mel precisasse, mas também precisaria estar sempre atento e vigilante, contra a ambição de povos vizinhos e distantes.

À medida que os romanos consolidavam a sua posição de grande mediadores ou governadores da bacia mediterrânea, estabilizando-a, faziam confluir para ela um enorme caudal de produtos vindo de todas as partes do mundo então conhecido, e alhures, auferindo dessa circulação de mercadorias uma enorme riqueza, enquantoo Reino Selêucida se esvaía em inúmeras guerras evitáveis e desastrosas intervenções, frutos de sua política externa personalista e inconsistente. Após mais de 20 anos de batalhas e escaramuças, Simão Macabeu toma a cidadela de Jerusalém, em setembro de 141, e dá fim ao domínio selêucida da Palestina. Os romanos só observavam, satisfeitos. Essa letargia, porém, foi sacudida pelo surgimento de uma nova e agressiva potência na Ásia, também de olho na importância comercial daquela região: a Partia, que, em 139 a.C., derrota e captura o rei selêucida Demétrio II.
Em 133 a.C., os romanos têm uma surpresa inesperada: Átalo III, rei de Pérgamo, um dos reinos mais ricos e estáveis da Ásia Menor, atual Turquia, doa o seu reino em testamento à Roma! Enquanto isso, os selêucidas continuavam, agravando a situação de seu estado com lutas intestinas pelo poder, cada vez mais intensas e destrutivas. Os nabateus e os armênios, que negociavam com os romanos, avançam sobre o território ou a carcaça do Reino Selêucida. No final dos anos 80 foi a vez dos romanos imitarem aos selêucidas, e dar início a uma sangrenta guerra civil, dirigida por seus mais brilhantes generais, Mario e Sila, em benefício deles próprios.
Como a situação na região estava ficando muito confusa e instável, com a expansão de reinos periféricos, como o do Ponto, ameaçando importantes rotas comerciais, inclusive com a presença cada vez mais ousada dos partos, os romanos, pacificados internamente, resolveram que era hora de agir mais diretamente na região, e despacharam para lá o seu mais competente general, Cneu Pompeu, com um fornido exército, que numa rápida campanha submeteu o Reino do Ponto e da Bitínia, descendo em seguida na direção de Jerusalém, nessa ocasião envolvida em sangrentas disputas familiares pelo poder.
A pequena nação judaica, reinstalada na Palestina, no centro do Oriente Médio, em tempo relativamente recente, aferrava-se vigorosamente à sua religião e a costumes tradicionais para preservar o seu legado religioso, tido por eles como uma missão de caráter universal, da mesma forma que os romanos tinham a sua, embora de caráter mais secular.
Nessa fase do desenvolvimento de seu conceito de nação, urgia marcar uma diferenciação bem clara entre o judeu e o não judeu – pelo menos foi isso que eles perceberam da leitura dos profetas, embora haja outras passagens na direção oposta, pregando uma integração com outros povos para criar um reino universal para Yahweh, aumentando o fosso cultural com os povos ao redor, o que não era muito propício a conseguir a boa vontade destes para a missão que àqueles fora confiada. A diplomacia e a política de alianças não eram, e parece que ainda não é, o forte desse povo tão original. Mesmo entre eles as divisões imperavam, e se acirravam, a partir de entendimentos mutuamente excludentes da Palavra de Deus. O seu espírito de partidarismo, talvez derivado de um forte sentimento tribal, que os unia numa “grande tribo”, mas os subdividia em pequenos grupos, “tribos” internas, inconciliáveis, criadas a partir do retorno de suas lideranças do conhecido Cativeiro da Babilônia, lá por volta de 538 a.C. Avancemos paulatinamente.
A religião mosaica sempre teve como centro de dinâmico e estabilizador o Templo de Jerusalém, gerido por uma poderosa classe sacerdotal, escorada pela tribo dos levitas. Ora, com a destruição do Templo e a dispersão e morte de sacerdotes e levitas, por Nabucodonosor, e a sua transferência forçada para uma cidade que não compactuava em absoluto com a sua fé, os deportados judeus tiveram que se adaptar à nova situação.
Em primeiro lugar, desenvolveram uma estrutura leiga, substituta do Templo, não em matéria de rituais solenes, serviços litúrgicos, mas como preservadora da Lei, a única herança de Jerusalém, que eles puderam levar para a Babilônia. Essa estrutura é a sinagoga, que até hoje é o sustentáculo não só da fé como da cultura ancestral judia, enquanto eles se aferram ao que restou do Templo de Herodes, e à esperança de um dia reconstruírem-no no mesmo lugar do original. A sinagoga, portanto, nasce da veneração do homem comum judeu pelas Sagradas Escrituras, a Lei (Torá), enquanto se propõe a ser um depositário e guardião fiel, para não dizer: literal, daquilo que a tradição determinou ser a Palavra de Deus, cujo descumprimento levou a tantas desgraças.
Em segundo lugar, com a dispersão da classe sacerdotal e da forma oficial, estatal, de culto, perdeu-se também a forma tradicional e segura de interpretação dos livros sagrados, antes adstritos aos sacerdotes a aos levitas graduados e reconhecidos, morando entre os fieis. A leitura e a interpretação da Bíblia teve que abrir-se a vários grupos leigos muito piedosos, cuja diversidade de interesses acabou marcando indelevelmente essa interpretação. E assim a Lei acabou se tornando um sério fator de divisão interna, que iria colocar os judeus frente a novos e mortais desafios, nem sempre respondidos adequadamente.
Entre os vários grupos que surgiram em torno da Lei encontram-se os assidins ou assideus [citados em 1Mc 2,42], que se destacavam pela sua piedade e culto à lei extremados. Segundo Karl Baus (em Jedin, 1966, pg 114-115), eles eram “homens sérios que buscavam a última e mais profunda vontade de Deus, expressa na Lei... Esta vontade de Deus lhes parecia tão sublime que os levaram a ‘levantar uma cerca ao redor da Lei’, como que a protegê-la de toda transgressão, inclusive involuntária. Os assideus queriam servir à lei com uma obediência absoluta, ainda que a custa de sua própria vida [como em 1Mc 2,29-38]” (tradução livre). Sobre esse grupo, a versão online da Jewish Encyclopedia narra que alguns deles chegavam a fazer rasgados louvores à santidade do rei Saul, expressa no famoso episódio de 1Sm 24, quando este, precisando ir ao banheiro, entrou numa gruta para se aliviar, para que os céus não vissem a sua nudez, enquanto lançam as maiores críticas contra Davi, que ousou bisbilhotar o rei, em um momento tão íntimo. A mesma interpretação é dada ao episódio em que Micol recrimina a Davi por dançar diante da Arca, trajando uma pequena tanga (2Sm 6,20-23). Era ela, e não o autor bíblico, quem tinha razão; Davi que tomasse ‘vergonha na cara’.
Imagine-se pessoas com esse grau de pudícia, tendo que conviver no meio de representações estatuárias de homens e mulheres inteiramente nus, algumas, inclusive, representando divindades! Um Deus despido! Que falar de ídolos antropomórficos masculinos, apresentados com o órgão genital ereto, associados a cultos de fertilidade? Um horror! Talvez daí tenha nascido a expressão judia ‘goim’, para designar os não judeus, cuja pronúncia imita o grunhido de um porco.
O grupo dos assideus, que se formara ao longo da retomada da Palestina pós-exílio, irá em bloco para a resistência macabeia, embora não adira à dinastia por eles fundada ao fim da expulsão dos selêucidas. Desse grupo, por um processo de evolução natural, surgirão os fariseus e os essênios, segundo o historiador judeu Flávio Josefo.

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Os fariseus constituíam o mais forte grupo religioso judeu, quando do nascimento de Jesus, e destacavam-se não só pelo culto extremado e literal à Lei, assim como à “Tradição dos Antigos”, num grau de minúcia estonteante. O orgulho de pertencer a esse grupo transparece no seu próprio nome “fariseus”, que em hebraico quer dizer “separados”, e foi destacado por Jesus na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10-13).
Sobre eles diz Karl Baus: “os fariseus tornaram ainda mais impenetrável a ‘cerca ao redor da Lei’, pois cuidaram de fixar para cada situação da vida a atitude correta exigida por Aquela... O intento de enquadrar todas as situações possíveis da vida diária, num quadro interpretativo da Lei, conduziu a uma exegese em que qualquer partícula verbal tornava-se importante, e das coisas mais secundárias, sacava-se as mais estranhas consequências. Muito mais danosa era a inexorável atitude casuísta, daí derivada, com que se considerava as questões morais, já que impossibilitava ou deformava o livre exercício de decisões morais, por parte do indivíduo. Mas nisso, os fariseus se viam obrigados [pelas circunstâncias mais variadas da existência da vida em sociedade] a fazer, em casos particulares, concessões que contradiziam a seus próprios princípios, pois tinham que impor regras e preceitos que fossem igualmente realizados por todos” (idem, pg  116). Da compulsão para as minúcias, típica desse grupo, produziu-se a proliferação dos mandamentos, que dos nove ou dez originais passaram a 613, todos igualmente obrigatórios.   
Dentro do movimento fariseu surgiram duas escolas ou tendências interpretativas da Lei: a de Shammai, que tinha uma abordagem mais rigorista, e a do rabino Hilel, que propunha uma interpretação mais flexível, e que foi, por um tempo, orientada pelo célebre Gamaliel, citado na Bíblia como juiz de Pedro e João (At 5,34-39) e mestre de São Paulo (At 22,3) – agora imaginem: se Paulo, que era da tendência mais moderada, foi capaz de fazer o que fez com Estevão e de combater os cristãos como o ardor descrito nos Atos dos Apóstolos, com que violência não agiam os outros?
         Politicamente falando eles se comportavam como “neutros” diante do domínio romano, uma vez que só lhes interessava o mundo espiritual, e embora fosse mais lógico que no fundo aspirassem uma teocracia, estavam, entretanto, alijados desse processo pela feroz resistência a eles imposta pela classe sacerdotal, associada à dinastia dos asmoneus, que lhes movia oposição, a maioria das vezes sangrenta.
    Outro grupo muito curioso foi o dos essênios, que, segundo Josefo, procurou viver uma radicalidade espiritual à semelhança das antigas comunidades de profetas. Derivados dos assideus, eles, provavelmente, viviam isolados em pequenas comunidades urbanas e rurais, tão fervorosas quanto escandalizadas com o rumo que tomavam os conflitos políticos e religiosos em Israel, optando, a partir de um momento ainda não completamente elucidado nem explicado em suas razões mais íntimas, romper tanto com o aparato fariseu como com o sacerdotal. O centro desse movimento situava-se vale de Qumran, perto do Mar Morto, e aparentemente tinha uma estrutura semelhante a de um monastério cristão tradicional, que associado às suas crenças e costumes básicos, fez muita gente, no final do século XX, acreditar que eles foram...


         ...Os mestres de Jesus e de João Batista

        
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         Em 1947/48 o mundo dos estudos acadêmicos, arqueológicos, da Bíblia foi abalado com a notícia         de que um pastor beduíno jordaniano havia descoberto manuscritos muito antigos, dentro de grandes ânforas de barro, ocultas em cavernas, cujo conteúdo denunciava serem eles uma parte da biblioteca de uma importante comunidade, senão a mais importante, dos essênios, situada próxima a um lugar, chamado pelos árabes de Khirbet Qumran – um pequeno vale, por onde eventualmente corre um fio de água na estação chuvosa.
Até aquele momento, só se conhecia dos essênios o que fora escrito por Flávio Josefo, fazendo pairar sobre eles a desconfiança de uma lenda ou informação mal recolhida, ainda mais pelas citações surpreendentes, muito elogiosas, feitas por aquele historiador. Isso fez com que alguns avançassem na tese que Jesus, e principalmente João Batista, teriam sido influenciados pelos essênios – uma longa temporada com os essênios, recebendo a sua formação, explicaria o silêncio que paira sobre o Batista, depois de seu nascimento maravilhoso. Durante um tempo, os essênios foram uma sombra se interpondo entre Jesus e a natureza divina de sua pessoa e mensagem.
Agora, porém, que os textos desses manuscritos foram todos traduzidos podemos concluir o seguinte:
            a) Eram zelosos guardiães da letra Lei; tanto ou mais que os fariseus.
         b) Acirrando ainda mais a oposição que os fariseus faziam às grandes famílias sacerdotais, os essênio pregavam o confronto total e aberto com os sacerdotes do Templo, tratando inclusive ao Sumo Sacerdote de “Sacerdote Ímpio”, afirmando serem eles, os essênios, os verdadeiros defensores da autêntica tradição sadoquita – os sadoquitas eram a família oficial de sumo sacerdotes, antes do Cativeiro.
         c) Eram dirigidos por um chefe geral chamado de “Mestre da Justiça”, o seu equivalente ao Sumo Sacerdote, que dirigia um conjunto de outros sacerdotes e oficiais menores, em uma estrutura hierárquica bem definida e centralizada.
           d) Eram fortemente ritualistas, tanto ou mais que os fariseus, e tinham em muito alta conta o conceito de “pureza” e “contaminação”, que devia leva-los à prática de contínuas abluções.
         e) Tinham o hábito de repartir seus bens entre si e de fazer refeições comuns.
      f) Eram muito mais rigorosos em questão de moral que as outras tendências judaicas, mas ao contrário destas valorizavam muito a virgindade; um tabu entre os judeus.
      g) Eram muito apegados a uma abordagem apocalíptica dos eventos futuros, coisa que não interessava muito às outras correntes, e que apresentavam de uma forma vívida e dramática, por meio de grandes catástrofes cósmicas e acontecimentos extraordinários.
         h) Também esperavam a um Messias, mas sua visão a esse respeito era peculiar: haveria dois Messias; um para a Casa de Aarão (um Messias sacerdote), e outro para a Casa de Davi (um Messias político), sendo que aquele se imporia inexoravelmente sobre o último.
         Etc. etc.
         Entretanto há diferenças marcantes como registra McKenzie (2003), como a proeminência política do sacerdócio apontando para uma teocracia, a exacerbação ritualista, a prescrição de odiar os “filhos das trevas”, a mensagem de enfrentamento militarista, o interesse minucioso pelo calendário, o caráter esotérico das reuniões, o isolamento em relação a Jerusalém, a submissão estrita à lei de Moisés, o culto do sábado (ainda mais estrito que o dos fariseus), que são frontalmente distintos dos ensinamentos de Jesus.
         Podemos dizer agora, depois que todos os manuscritos foram traduzidos, que não se encontrou neles nenhuma menção, nem a Jesus Cristo nem a João Batista, ou aos cristãos, que está sepultada definitivamente a tese da procedência qumrânica de nossa Igreja, deixando-a para os teimosos de sempre e àquelas pessoas que gostam de exercitar, seja a sua fantasia seja a sua habilidade de confundir...
  
         Havia também o grupo sacerdotal, formado por 24 grandes famílias que, no tempo de Jesus, monopolizavam o serviço no Templo, intimamente associadas à estrutura de poder vigente, e, por isso mesmo, muito próximo aos invasores e estrangeiros que dominavam sobre a nação. A formação do grupo sacerdotal é obscura e os textos bíblicos não esclarecem muito ou adicionam acréscimos em determinadas situações, que os especialistas crer que os fatos ali narrados possam ter sido, de alguma forma glosados, Esse
Esse grupo era orientado e dirigido por um sumo sacerdote, suposto descendente da família de Sadoc, da casa de Aarão, que monopolizava o sumo sacerdócio, e que foi elevado a essa dignidade pelo rei Salomão, contrariado com o apoio que outra família de sumo-sacerdotes, a de Abiatar, dera às pretensões dinásticas de Adonias (1Rs 2,26-27), e esse cargo esteve nas mãos desse grupo, até que Onias II foi destituído pelo rei selêucida Antíoco Epifanes, em 175 a.C., e substituído por Jasão, o último descendente da linhagem de Sadoc no posto, sendo, a partir daí, ocupado por gente do interesse dos selêucidas, até que o macabeu Jônatas assumiu a função, em 153 a.C., gerando um grande ressentimento nos grupos religiosos mais tradicionais, que não reconheciam essa manobra, uma vez que os macabeus não eram descentes da família de Sadoc – os macabeus, por causa disso, foram fortemente combatidos pelos fariseus e pelos essênios, que se diziam sadoquitas e se recusavam a frequentar o Templo regido por um grupo sacerdotal espúrio.
         Com o passar do tempo, em especial no governo dos Herodes, o posto de sumo-sacerdote se tornou um posto cada vez mais político, autorizando-nos a dizer que esse grupo, que normalmente fazia muita oposição aos fariseus, assumiu, em matéria de religião, um posicionamento cada vez mais distante do povo e pragmático, cuidando apenas de seus interesses políticos e econômicos. Era o grupo mais conceituado do sistema, e o que mais aproveitava das benesses do poder. Em termos religiosos eles se manifestavam por meio da facção dos saduceus, que defendiam a inspiração exclusiva dos cinco livros da Lei, supostamente escritos por Moisés, em contradição com os fariseus, que aceitavam os livros proféticos e sapienciais, além de outras questões teológicas como a negação dos anjos, da ressurreição dos mortos, a crença em um messias sacerdotal, etc. Tendiam a defender o livre arbítrio, enquanto os fariseus defendiam a predestinação, e eram mais rigorosos ainda na interpretação da Lei.
         Por fim havia o grupo dos zelotes, nacionalistas fanáticos, que, aparentemente, receberam apoio sempre crescente do povo mais simples, mais sugestionável à sua propaganda apaixonada. Para eles, a principal questão resumia-se a uma só: expulsar romanos e estrangeiros da Terra Santa, de preferência pela força das armas, afirmando o poderio judaico, afinal se os macabeus, assim como Davi, conseguiram derrotar povos mais poderosos, porque eles não conseguiriam derrotar o gigante romano? O seu messias é exclusivamente político, como exclusivamente judaica deve ser a Palestina. O horror ao estrangeiro, em geral, é a marca da sua proposta política, levada a cabo por meios que hoje nós chamaríamos de “terroristas” – em geral levavam punhais escondidos nas roupas, com o qual assassinavam, em via pública, a vítima escolhida, e por isso os romanos os chamavam de sicários (homens da adaga). Não perdiam a oportunidade de insuflar o povo reunido, por qualquer pretexto que fosse. O importante era criar o máximo de problemas para o invasor.

         A luta heroica dos macabeus redundou tanto na expulsão dos selêucidas como na criação de uma monarquia nacional, encabeçada por eles, é claro, que recebeu o nome de dinastia dos asmoneus, devido a um tal Asmoneu, que, segundo Flávio Josefo, seria pai do velho Matatias, mas, embora tenham conseguido a independência do país, eles não conseguiram pacificá-lo, nem acomodar as facções apaixonadas que se formaram, após vitória. Em primeiro lugar foram reabertas antigas feridas raciais-nacionalistas, com a destruição completa do templo samaritano, no monte Garizim, em 128 a.C., por João Hircano (135-105), como era do gosto dos grupos religiosos internos, em especial o fariseu, mas ele alarmou e afastou o apoio desses grupos ao pretender enfaixar em suas mãos tanto o poder político como o religioso, lançando os alicerces de uma teocracia controlada pelos asmoneus, vista como intolerável por esses grupos, uma vez que os asmoneus não descendiam de nenhuma família sacerdotal, que apoiasse as suas pretensões.
O resultado disso foi o acirramento das tensões internas, e a luta pelo poder divide a família. Aristóbulo I (105-104), filho de João, manda prender a mãe, a quem havia sido atribuído o poder, e manda matar o irmão, mas seu reinado foi breve, e sua morte foi vista por muitos como um presente de Deus. A dissenção entre os macabeus e a oposição farisaica atinge o seu auge no reinado de Alexandre Janeu (104-76), quando este mandou executar centenas de fariseus e outros, que haviam se rebelado contra ele, numa guerra civil particularmente sangrenta, que contou uns 50 mil mortos – diz Flavio Josefo, que ele teve a pachorra de levar 800 prisioneiros para Jerusalém, onde os fez crucificar, ao mesmo tempo em que mandava, sob suas vistas, degolar suas esposas e filhos, enquanto ele se banqueteava com suas concubinas, apreciando o “espetáculo”.
Nesse universo de guerras, crises e mudanças bruscas, internas e externas, os judeus faziam e refaziam, de acordo com a expectativa do grupo ao qual se filiavam, um conceito fundamental, muito discutido após o Exílio: o de Messias.
Esse termo misterioso, que ao mesmo tempo evocava uma realidade tão abrangente quanto espetacular, o reino universal de Jahweh, a partir de Israel, fez sua aparição desde os primeiros relatos da Bíblia – a quem o ligue a Gn 3,15 – ganhando cada vez mais consistência política, como o advento do Reino de Israel, sob a dinastia davídica, que fez ver em diversas passagens do Primeiro Testamento, que esse obscuro, mas importantíssimo personagem seria um descendente e continuador da dinastia de Davi, no sentido mais humano e político do termo, conforme aparece em várias passagens (Gn 49,8-12; 2 Sm 7,5-16; 1Cr17,4-14; Sl 2; 20; 21; 45;72; 89; 101; 110; 132,17-18; Is 6-9; etc.), embora se possa ver nelas, também, certas variações que dão a entender que se estava diante de um conceito, de um acontecimento, tão grandioso, que a mente humana não pode discernir em toda a sua complexidade e maravilha, pelo menos naquele momento histórico.
As profecias sobre o Messias ganham muita força nos profetas do exílio e pós-exílio, como Jeremias, Ezequiel, etc., além do misterioso personagem visto por Daniel em 7,13, e que Jesus dá a entender se referir a ele, em Mt 8,20, justo no momento em que os judeus não teriam muitas razões para acreditar de literalidade do conceito de messias, como um poderoso rei conquistador, e num Israel transformado em cabeça de um império mundial. Talvez fosse esse o propósito da tão dura provação que eles experimentavam, o exílio na Babilônia: prepará-los para um tipo de messias como Jesus, pacífico e espiritual. Mas os judeus dessa época, lendo-a de uma perspectiva nacionalista e excludente, a partir de uma mágoa irrefreável, aferraram-se ainda mais à ideia do messianismo político, sem falar de outros agravantes.
Israel perdera o seu centro religioso, e não tanto pelo templo, transformado em ruínas pelos babilônios, mas pelo fim da dinastia davidíca e na dispersão e corrupção da classe sacerdotal, sem falar do fim do carisma profético que, no passado, fazia alguns homens escolhidos de intérpretes e porta-vozes abalizados da Palavra de Deus, guias de Israel. A partir daí se multiplicam as interpretações e os grupos religiosos, cada um com ênfase naquilo que lhe interessava ver nas Sagradas Escrituras, e no que, ou em quem, seria o Messias de Israel. De certa forma, para muitos judeus, em especial os mais humildes, a imponência majestosa do Segundo Templo, obra mestra da “raposa” herodiana, a que até os apóstolos se mostram sensíveis (Mc 13,1), devia representar por si só uma segurança e um substituto à altura de uma classe sacerdotal distante, palaciana, ou de um provável messias terreno.

McKenzie (2003) assim coloca a situação desse conceito no tempo de Jesus: “não há uma concepção coerente: às vezes a restauração de Israel é imediatamente seguida pelo fim do mundo; outras vezes, não há em absoluto um reino terreno de Israel, com toda conclusão messiânica do mundo sendo extraterrena... afirma-se que o reino terreno durará mil anos... As nações são condenadas ou destruídas e a Palestina é renovada, tornando-se um paraíso terrestre. O próprio Messias... amiúde ele é um ser humano preexistente que vem do céu. Ele é o conquistador dos povos e o rei do reino terrestre. A importância do sacerdócio no judaísmo tardio... faz surgir a concepção de dois messias, um Messias rei davídico e um Messias sacerdote...”(pg 608-609).

Notas
(1) O poeta Virgílio, da época de Jesus, escreverá em seu poema Eneida, que trata da chegada à Itália do herói troiano Eneias, lendário ancestral dos fundadores de Roma, os seguintes versos, que mais parecem uma profecia distante: “Lembra-te, romano, que é a ti que cabe governar as nações, e esta será a tua missão: impor os caminhos da paz, perdoar os vencidos e submeter os soberbos”.
(2) Em 169 a.C., quando voltava de uma campanha no Egito, Antíoco IV saqueia o Templo de Jerusalém, segundo o historiador grego Políbio.

Bibliografia
Cornell, Tim e Matthews, JohnRoma legado de um império; col. Grandes Impérios e Civilizações; trad Maria Emilia Vidigal; Del Prado; 2 vol; Madrid, 1996;
Diacov, V. e Covalev, S.; História da Antiguidade – Roma; trad João Cunha Andrade; Fulgor; São Paulo; 1965
Jedin, Hubert (org); Manual de Historia de la Iglesia – e la Iglesia primitiva a los comienzos de la gran Iglesia - tomo primero; versión castellana Daniel Ruiz Bueno; Herder; Barcelona 1966;
McKenzie, John L.; Dicionário bíblico; trad. Álvaro Cunha e outros; 8ª edição; Paulus; São Paulo; 2003.

domingo, 7 de junho de 2015

INSPIRAÇÃO BÍBLICA (dados breves)

Prof Eduardo Simões

http://www.bibleexplained.com/revelation/r-seg11-12/John-w-ark.jpg
http://www.bibleexplained.com/

        Ave!
        Definição: “é um carisma sobrenatural, dado por Deus a certos homens no seio do povo de Deus, para consignar por escrito, com validade geral e pública, os mistérios de Deus e de sua intervenção na história da Salvação humana, que Deus quis que fossem dessa maneira [escritos] entregues à Igreja, para o nosso bem e para a nossa salvação” (retirado de mercaba.org, o mais completo site católico da web, todo em espanhol: é imperdível!).
        Os elementos dessa inspiração são os seguintes:
        a) Não supõe a autoria literária original, ou seja, o conhecimento exato do agente humano responsável pela inscrição do texto, nem os seus méritos pessoais. Isso é irrelevante, uma vez que o autor mesmo, isso nos diz a fé e o magistério infalível da Igreja, é Deus; desse modo nada se perde do ensinamento contido, por exemplo, na epístola aos hebreus, embora a sua autoria não seja reconhecida unanimemente – a tradição nos diz que é obra de Paulo e contada entre estas, mas quase tudo nela, como o seu estilo literário, os seus conceitos, a sua forma de argumentar, não se parecem em nada com o estilo de Paulo, nas outras cartas. Muito mais controvertidos são os cinco livros do Pentateuco, cujos dados do texto nos revelam a impossibilidade de ter sido escrita por um só homem, e menos ainda Moisés – que pode até ser o autor de alguns trechos – como diz a tradição, sem que isso lhes cause qualquer demérito quanto a sua inspiração.
        b) É divina, condição indispensável para constar do cânon.
        c) A Inspiração Bíblica, como um carisma sobrenatural e divino, induz ao hagiógrafo – o autor humano do texto – “para que ponha por escrito, sem erro, o que
Deus quer revelar e comunicar aos homens” (idem). Daqui surge uma questão: o conteúdo da revelação é isento de erros, mas não o autor humano, o hagiógrafo, que pode ser um pecador, assim como a sua forma específica de relatar os dados da Inspiração, além das limitações da língua corrente, do entendimento dos leitores, inclusive dos especialistas, como os escribas, os revisores nas editoras, etc., encarregados de reproduzir novas edições do que foi escrito, e que podem adicionar coisas que podem, num extremo causar alguma distorção [a responsabilidade de manter íntegro o texto bíblico, para o seu próprio bem, não é nem de Deus nem dos anjos, mas dos homens]. Deus, decerto que ilumina tanto o hagiógrafo, como as pessoas de boa fé que se aproximam do texto para que entendam perfeitamente o sentido daquilo que foi escrito e lido, que é o que importa, para aqueles que não tratam a Bíblia como a um ídolo. Aliás, se o texto bíblico fosse sempre perfeitamente escrito e transmitido, e perfeitamente entendido, não haveria necessidade de profetas, sequer de Jesus Cristo.
        d) “O carisma da Inspiração é gratuito, sobrenatural e transitório” (idem). Ele, o carisma, só aparece na revelação daquele mistério que Deus quer tornar conhecido, fora disso o hagiógrafo leva sua existência comum, e por vezes até não muito santa, como no caso de Davi, que depois de um pecado horrível compôs um dos mais belos salmos da Bíblia (Miserere).
        e) O carisma dá luz ao hagiógrafo para que entenda perfeitamente aquilo que lhe é revelado, e possa discernir com certeza que aquilo que se lhe “aparece” é coisa de Deus – não sabemos exatamente como isso acontece, é possível que essa certeza de inspiração ocorra em pessoas diferentes de forma diferente, por isso é tão importante manter-se junto ao Magistério e à comunidade eclesial, que são âncoras firmes, capazes de dar um veredito seguro sobre a natureza da inspiração, evitando as armadilhas de sentimentos e sensações confusas, que arrastaram a muitos para longe do verdadeiro caminho.
        f) “É um dom outorgado por Deus, não para a santificação de quem o recebe
(uma graça santificante), mas para o bem da Igreja (graça grátis dada)” (idem).
        g) Sob o efeito da inspiração o hagiógrafo escreve somente aquilo que Deus quer, e nada mais.
        h) A Veracidade dos escritos bíblicos é, para o católico, tanto óbvia como dogmática e decorre das seguintes circunstâncias:
        h.1. “Ela está ligada com o fim mesmo da Inspiração [ou seja, revelar a Verdade Suprema, que é Deus]” (idem).
        h.2. Ela está necessariamente ligada à perfeição de Deus        .
        h.3. “Ela se estende a todo conteúdo da Bíblia” (idem).
        h.4. “É uma verdade absoluta, que contém tanto verdades de ordem metafísica [quando se refere a realidades espirituais], como acontecimentos, promessas, e exigências ético-morais” (idem).

        São Tomás de Aquino, em sua Summa Teológica, trata dessa questão da seguinte maneira: “a causa agente pode ser dupla: principal (ou aquela que obra por sua própria virtude [no caso, Deus]) e instrumental (ou aquela que obra em virtude da moção prévia que recebe de um agente principal [no caso, Deus] e é também aplicada à ação [nesse caso, o hagiógrafo, que é um “instrumento” de Deus]). Dessa forma, o instrumento, recebe uma capacidade mais elevada, que ultrapassa a capacidade que lhe é própria, para além de sua natureza. O efeito obtido é tanto de um [de Deus] como do outro [do hagiógrafo], embora de maneira distinta... os hagiógrafos são instrumentos vivos, livres e racionais movidos por Deus para a redação dos Livros Sagrados. Essa ação de Deus sobre o hagiógrafo, se observa como uma ação ad extra [externa] de Deus (inspiração ativa), atribuída de modo especial ao Espírito Santo; que é recebida livre e voluntariamente pelo hagiógrafo (inspiração passiva), e que se acha inscrita nos Livros Sagrados (inspiração terminativa)” (idem)
         Amém

terça-feira, 12 de maio de 2015


GENOCÍDIO ARMÊNIO (1915-1918)

Prof Eduardo Simões

         Provocou celeuma, uma declaração recente do Santo Padre, Francisco, sobre um certo genocídio armênio, do qual quase ninguém, em nosso país, já ouviu falar, embora quase todos saibam, lamentem e homenageiem, com justiça, o genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial, pelos nazistas. Aqueles brasileiros mais bem informados souberam também que, por causa da declaração do Papa, o governante da Turquia, o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, chamou de volta seu embaixador no Vaticano, além de fazer toscas ameaças, dando a todos a primeira pista: os turcos estão envolvidos, e têm “culpa no cartório”.
         Alguns analistas afirmaram que o Papa fez a declaração, interessado em se aproximar mais da Igreja Ortodoxa, inclusive de olho no ramo russo dessa igreja, o mais importante, o qual é preciso aplacar, para facilitar esforços pelo fim da matança na Ucrânia, onde há uma numerosa comunidade católica, e se abram corações e mentes para a possibilidade de convivência entre as duas nações eslavas. Se ele pensou nisso pensou bem.
         Entretanto eu tenho certeza de que ele falousobre isso não só porque houve de fato um genocídio pavoroso, mas, principalmente, porque ele tem certeza que a sua declaração não acarretará nenhum dano imediato aos cristãos que vivem na Turquia, e sobre os quais ele tem responsabilidade, antes que agradar a intelectuais, historiadores ou correntes de pensamento, por mais politicamente corretas que sejam.
Para esclarecer mais a nossos leitores, escreveremos nesse artigo o que a nossa pesquisa nos revelou sobre o Genocídio Armênio.

A Cristianização da Armênia

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Mosteiro de Khor Virap, na Armênia, construído no século XII, no lugar onde, segundo a tradição, o rei Tirídates III atirou Gregorio I o Iluminador em um poço, na época em que aquele ainda era um ardoroso defensor do politeísmo. Nesse buraco, uma espécie de calabouço, Gregório teria vivido 14 anos, e de lá saiu para curar o rei e se tornar patriarca da Armênia. Ao fundo, rodeado de nuvens, o monte Ararat onde, segundo a Bíblia, teria atracado a arva de Noé.


         No tempo da República Romana os armênios constituíam um grande império no leste da atual Turquia, noroeste do Iran, bem no encontro da Europa Oriental com a Ásia. Durante séculos os romanos disputaram com potências locais (Partia e Pérsia), o controle da região, incutindo nela um verniz de cultura ocidental, até que os turcos otomanos, com sua expressão própria do islamismo, a tomaram em 1453, dos bizantinos, e a repartiram, posteriormente com os persas, também islâmicos, mas com uma interepretação também original dessa religião, após longas e sangrentas guerras. A maior parte do antigo território armênio, entretanto, ficou sob controle  turco.
         Muito antes desses acontecimentos, porém, ainda sob o jugo dos romanos, a região recebeu a pregação do cristianismo, segundo uma lenda local, pelas mãos dos apóstolos São Judas Tadeu e São Bartolomeu, mas sem prosperar muito, devido às perseguições dos romanos e dos reis locais, que eram independentes, mas aliados de Roma. Foi apenas em 301, quando um grande santo local, Gregorio I o Iluminador, conseguiu converter o rei Tirídates III, que o cristianismo encontrou campo livre para a sua expansão, ao mesmo tempo em que o rei a tornava religião de estado. A Armênia foi o primeiro estado no mundo a reconhecer o critianismo como religião oficial.
         Entretanto o cristianismo armênio não conseguiu manter seus laços com Roma, rompendo-os, após o Concílio de Calcedônia, em 451, por considerar que aquela estaria acolhendo as teses do bispo hereje Nestorio, que pregava a separação radical das duas naturezas de Cristo: a humana e a divina. Para reforçar a questão da unidade em Cristo, o grupo armênio preferiu radicalizar na direção oposta, segundo a percepção dos Padres da Igreja, excluindo a natureza humana de Cristo. Essa posição é chamada de monofisismo, e ao tomá-la a igreja da Armênia se isolou tanto do cristianismo ocidental romano como das grandes correntes do cristianismo oriental ortodoxo. A Igreja Apostólica da Armênia ficou sozinha, com o seu povo, para enfrentar as agressões de vizinhos antigos e recém-chegados.
         Durante as cruzadas, uma parcela do povo armênio, representada pelo clero do Reino Armênio da Cilícia, achegou-se aos cruzados e reatou ligação com Roma, tornando-se os fundadores da Igreja Católica Armênia, ou católicos de rito armênio, que só ganhou realidade de fato lá pelo ano 1737, quando Abraham PedroI Adzivian foi nomeado patriarca dessa igreja, pelo Papa Bento XIV. Até hoje esse grupo é minoritário, e também sofreu muito com o genocídio de 1915.

Massacres Hamidianos (1894-96, 1909)

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Em grandes salões de luxuosos palácios, os ricos e poderosos da Terra se reúnem a pretexto de “acertar” os destino do mundo moderno. Visão geral da última sessão do Congresso de Berlim, em 1878, onde começou, o flagelo turco-armênio, ditado por interesses estritamente comerciais e geopolíticos estrangeiros. Na primeira fila temos, da esquerda para direita, Alajos Károlyi (da Austria Hungria, se apoiando na cadeira), Alexander Gorchakov (da Rússia, sentado), segurando um braço de Benjamin Disraeli (Reino Unido). Ao centro, de pé, estão Gyula Andrássy (Austria-Hungria), vendo Otto von Bismarck (Alemanha), apertando a mão de Pyotr Shuvalov (Rússia). No canto direito, com barretes vermelhos, os representantes da Turquia;


         Sob o domínio dos sultões turcos, governantes autoritários, despóticos, ou “absolutistas”, mas que tiveram a sabedoria de não colocar a religião como impecilho a ascensão de burocratas competentes, o Império Otomano cresceu, abarcando terras nos três continentes, e, apesar da religião muçulmanda ser oficial, os não muçulmanos, embora tratados como cidadãos de segunda categoria, eram relativamente bem tratadas. Os armênios, por exemplo, formavam uma comunidade muito rica, culta, razoavelmente urbana e influente. Era, decerto, uma proteção de caráter paternalista, sujeita aos sabores de elementos incertos e do humor dos sultões, mas que funcionava, não deixando aflorar grandes diferenças entre os diversos grupos étnicos do Império Turco.
         Entretanto, vigorosa expansão do imperialismo russo, na Europa Oriental e na Ásia, a partir do século XVIII, à custa do Império Turco, fez acender a luz amarela entre as potências ocidentais, principalmente a Inglaterra, que começava a se enriquecer com os tesouros da Índia, e que temiam a formação de um poderoso império, fosse qual fosse, no meio do caminho ou nas fronteiras de sua promissora colônia. Para os ingleses, nessa época, era preferível o Império Turco, decadente, ao Russo, em ascensão.
Os turcos, entretanto, metiam os pés pelas mãos, promovendo grandes massacres contra quem se revoltasse contra sua dominação. Quando essa política foi utilizada para massacrar a população grega, tão valorizada no Ocidente por causa de sua cultura, e que se sublevara em 1821, pela sua independência, o clamor da opinião pública e de grandes intelectuais impediu que as grandes potências ocidentais continuassem desprezando o que acontecia ao sul, nos Balcãs, dando início à chamada Questão do Oriente, da qual a Questão Armênia é subproduto, e na qual se percebe, como poucas vezes na história, o caráter desumano e hipócrita das relações internacionais.
Seria fastidioso descrever aqui todas as tortuosas manobras levadas a cabo pelas potências europeias, a fim resguardar os seus interesses econômicos, em primeiro lugar, a revelia da mais tosca moral e indiferença quanto aos efeitos de suas intervenções para as minorias étnicas do Império Turco, e alhures. Muito superficialmente podemos dizer que, a partir da derrota dos turcos na guerra de independência da Grécia, contra uma coalizão formada por russos, ingleses e franceses – na Guerra da Crimeia, 20 anos depois, ingleses, franceses e turcos se aliarão contra a Rússia – o sultão foi obrigado a fazer uma série de reformas de caráter liberalizante, dando mais direitos às minorias do Império, entre estas os armênios, ricos, cultos e mobilizados na luta pela sua causa.
Aos ingleses interessava “abrir” a sociedade turca para os influxos do capitalismo, seguindo o modelo cultural das sociedades capitalistas ocidentais, inclusive no campo da tolerância religiosa. Em 1831, o sultão reconhece a Igreja Católica Armênia, e em 1834 a Igreja Evangélica (protestante) Armênia. Diplomatas e missionários vindo da Europa e Estados Unidos começam a “invadir” o império. O serviço militar torna-se obrigatório, todos devem se prestar a proteger as propriedades dos mais ricos, com grande prejuízo para os pobres camponeses muçulmanos, que viam seus filhos serem mobilizados e morrerem em guerras tão frequentes quanto evitáveis, perdendo uma valiosa mão-de-obra. Os armênios, proporcionalmente mais ricos, livram seus filhos do serviço militar e da guerra, pagando elevadas quantias, previstas na lei, para alguém se safar do serviço militar. Ótimo para o Estado e seus parasitas, péssimo para os mais pobres.
A imposição do liberalismo, juridicamente igualitarista, numa sociedade ainda marcada por relações de caráter tribal e de paternalismo despótico, fez ressaltar entre os diversos grupos étnicos as diferenças que antes havia, e que eram ocultas pelo personalismo dos sultões. Os muçulmanos mais pobres ficaram desalentados, afinal já não podiam “jogar na cara”, ou ao menos se sentirem de fato, cidadãos superiores em relação aos não-muçulmanos, como pregava a interpretação tradicional da lei islâmica, ficando, de fato, em uma situação de inferioridade social em relação aos ricos cristãos, afinal era uma ordem capitalista,e isso acirrou os ressentimentos étnicos. Para piorar ao longo de todo o século XIX as potências ocidentais só fizeram estimular o nacionalismo armênio, por causa do aspecto religioso, que teimava em subsisitir sob a capa dos interesses econômicos, inclusive fornecendo passaportes aos armênios da Turquia, que os tornava cidadãos de categoria superior, inclusive diante dos muçulmanos. Por causa disso a má vontade das autoridades turcas frente às demandas dos armênios só fez aumentar, aumentando, por sua vez, a insatisfação destes, num ciclo vicioso sem começo e sem um bom fim previsível.
Açodados pelos estrangeiros, jovens intelectuais armênios se deixaram levar pelas promessas da nações ocidentais, pelo nacionalismo belicista da burguesia europeia, e pelo imenso preconceito com que esta tratava os turcos – na alta esfera da política internacional europeia, o Império Turco era tratado como o “homem doente da Europa”, expressão cunhada em 1853 pelo tzar Nicolau |. Em 1885, um grupo desses jovens “sonhadores” fundou, em Paris, um partido que pregava abertamente o enfrentamento ao estado turco, e até a formação de um país armênio autônomo, “na lei ou na marra”. E passaram à ação criando toda sorte de mobilizações, greves, a até ataques a órgãos públicos, chegando ao extremo de atacar populações islâmicas.
Paralelo a isso, bandos de assaltantes de povos tribais kurdos e circassianos, armados pelo governo, como se fora um exército irregular, aproveitando-se do abandono das províncias orientais, começaram a saquear povoados armênios. Ante a impotência ou indiferença do poder central, organizações armênias de defesa se armaram começaram a revidar aos ataques.
O sultão Abdul Hamid II, um homem enrustido e paranoide – vivia isolado, pois tinha medo obsessivo de uma traição – reforçado pela da aliança com os alemães, além de contar outros apoios internacionais estratégicos, resolveu “apelar para a ignorância”, e ao invés de punir os responsáveis pelos crimes que o incomodavam, resolveu dar uma lição em toda comunidade armênia, armando civis e liberando forças turcas, além das temíveis tropas irregulares, para realizar um massacre geral, tipo “dar uma lição” nas áreas de população armênia, entre os anos de 1894 e 1896. Foi um desastre: o cálculo dos mortos, todos civis, com muitas mulheres e crianças, gira em torno de uns 88 mil mortos pelas armas e uns 100 mil pela fome; 546 mil foram expulsos de suas terras, 649 igrejas e mosteiros foram profanados, 324 delas foram transformadas em mesquitas, etc. Os assírios, também cristianizados, foram arrolados nos massacres e 25 mil deles morreram. Incapaz de separar a religião do estado, o homem turco comum associava a religião dominante nos países europeus, o cristianismo, às políticas implementadas por seus respectivos governos, e suspeitava dos cristãos dentro de seu país.
Esses ataques renderam a Abdul Hamid II ataques intensos pela imprensa europeia e norte-americana, e o afastou dos turcos liberais, abrindo espaço para que um grupo político novo na Turquia, os Jovens Turcos, desferisse um golpe de estado, em julho de 1908, forçando-o a cumprir a constituição liberal de 1876, que ele publicamente ignorava. Nesse primeiro momento os armênios conseguiram avanços, inclusive o direito de formar milícias locais armadas, o que cheirou como provocação e humilhação aos funcionários e militares leais do velho Hamid, que, aproveitando-se de um momento de fraqueza política dos Jovens Turcos, assumiu ditatorialmente o estado e incitou a população muçulmana, com um apelos religiosos, a atacar a população cristã armenia da cidade de Adana e arredores, em abril de 1909. Turcos muçulmanos atenderam em massa ao pedido, e mataram indiscriminadamente a umas 30 mil pessoas, inclusive missionários cristãos estrangeiros, católicos e protestantes.
Nova rodada de acusações pela imprensa, novas pressões diplomáticas, e Abdul Hamid II é deposto em um golpe incruento pelos Jovens Turcos, sendo substituído pelo seu irmão, o sultão Mehmed V, mas a sua vinculação a esses trágicos episódios não será esquecida, que passarão à história como o nome de massacres hamidianos.

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Aqui sobrou a dignidade que faltou lá. Segundo a foto, esse velho, rústico e pobre camponês turco muçulmano, Haji Agha, sentou-se à entrada de um hospital, onde estavam mulheres e crianças armênias, para protegê-las da fúria das multidões, em 1895

A Reação das Grandes Potências     

         Em 26 de agosto de 1896,exasperados pela imobolidade das potências europeias frente aos massacres do sultão Hamid II, um grupo de 28 armênios, homens e mulheres, portando armas invadiu a sede do Banco Otomano, de capital majoritariamente inglês, em Constantinopla, para chamar a atenção do que acontecia dentro do país e, quem sabe, forçar uma intervenção externa. A ocupação durou 14 horas e resultou na morte de 10 armênios e policiais turcos. No interior a população turca, enfurecida e insuflada pelas autoridades, atacou a matou pelo menos uns 6 mil armênios. Nenhuma potência se mexeu. O máximo que eles conseguiram foi um salvo-conduto, e a garantia de asilo na França.
Afinal o que queriam as grandes potências, que por tanto tempo forcejaram junto ao sultão para dar mais direitos e liberdades às populações cristãs da Turquia, e por que nada fizeram para proteger essa população, que eles tanto excitaram?
         A menção de aspectos religiosos em acordos firmados por países que só conheciam interesses econômicos, se prendia ao fato esse assunto sempre era levantado pelos russos, granjeando-lhes muita simpatias na região, sob a alegação de que a eles, os russos, cabia a tarefa de proteger populações cristãs, como que para justificar a sua expansão na área, sem falar que para essas populações, tanto cristãs como muçulmanas, esse apelo fazia muito sentido. Mas a posição dos russos era tão hipócrita como a dos outros.
         A posição inglesa: para os ingleses tratava-se, antes de tudo, de impedir o excessivo crescimento da Rússia nessa região, principalmente após o ano de 1875, quando os ingleses compraram o controle do Canal de Suez, uma rota vital para o seu comércio com o Extremo Oriente. Uma grande potência poderosa, próxima a Suez, seria intolerável. Para os ingleses era preferível uma Turquia fraca, mas não morta, e os ingleses achavam que esta já estava fraca o suficiente. Dito de outra maneira, os ingleses ora empurravam ora amparavam ao “homem doente da Europa”, e, embora internamente tenham se levantados muitas e importantes vozes contra os massacres e o tratamento dado aos armênios, o país nada fez. Um dos principais políticos da época Lloyd George, em sua autobiografia, acusa formalmente a política externa de seu país para a região, de ser o principal responsável por todos os massacres, e por fim o genocídio, sofridos pelos armênios. A posição inglesa era “sim e não”, de acordo com as conveniências...
         A posição russa: O grande Império Russo, especialista em aplicar derrotas esmagadoras aos turcos, e que, no discurso, se dizia protetor das populações cristãs do Oriente, temia a criação de um estado armênio em suas fronteiras ainda não consolidadas, que pudesse, inclusive, estimular desejos de autonomia por parte de outros povos do império. Nesse caso a sua política foi de estimular, mas sem se meter, o conflito entre turcos e armênios, que, afinal, enfraqueceria os dois, ambos considerados como obstáculos à sua expansão. O posição russa era: “que se matem os dois!”
         A posição francesa: mantendo laços estreitos com a Turquia, desde o século XVI, a França detinha uma posição excepcional dentro do país, comercialmente muito vantajosa, e não queria perder isso por nada, principalmente agora que a Alemanha se tornava cada vez mais próxima da Sublime Porta (outro nome da Turquia). O governo e a burguesia da França, apesar da retórica oficial, e do clamor da imprensa, não queriam nem saber de confrontar essa “mina de ouro”, ainda mais porque Abdul-Hamid II lhes fora muito favorável. A posição dos franceses era “elas [as riquezas turcas] são minhas; ninguém tasca, eu vi primeiro”
         A posição da Áustria-Hungria: tradicionais inimigos dos turcos, os austro-húngaros, como os russos, temiam o contágio das disputas nacionais internas na Turquia, e temia ser a próxima a se contagiar, já que havia inúmeras etnias no seu território que poderiam buscar autonomia, a exemplo dos armênios. A posição dos austro-húngaros era: “já que eu estou tão doente quanto eles [os turcos], é melhor lhes dar uma mãozinha”.
         A posição dos alemães: o chanceler von Bismarck julgava que os alemães nada tinha a ganhar com os problemas da Turquia, por isso pregava a indiferença. Com a ascensão de Gilherme II, em 1888, e sua temerária política internacional, sem falar do crescimento dos interesses comerciais alemães na região, e coisa desandou tanto, que o kaiser simplesmente “adotou” aos turcos, provavelmente querendo usá-los contra o expansionismo russo-eslavo, chegando ao ponto de ordenar que todos os seus agentes de corpos diplomáticos na Europa e na Turquia ficassem de olho nas organizações armênias, e transmitissem toda informação colhida direto ao sultão, acirando a sua paranoia persecutória, sem falar do absurdo de transformar embaixadores e cônsules alemães em agentes da polícia secreta turca! Há indícios de que alemães e austríacos, inclusive, deram apoio logístico e tecnológico ao genocídio de 1915, algo reconhecido pelo atual presidente da Alemanha. A posição dos alemães era: “quem tocar neles [nos turcos], eu atiro!”

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Wikipedia

Eis o resultado das declarações solenes do Congresso de Berlim. O que sobrou de uma próspera família armênia, em 1899.
        
Os Anjos da Morte

         O governo despótico e personalista dos sultões estava levando o país ao descrédito mundial, enquanto acelerava a rápida decadência de um poderoso império. Contra essa tendência, levantou-se um amplo movimento nas elites, conhecido como Jovens Turcos, iniciado, não por coincidência, em julho de 1889, cem anos após a revolução francesa.
         Esse movimento de caráter ‘progressista’, ‘modernizador’, ‘liberal’, burguês, empolgou amplas parcelas da população turca e não turca, como os cristãos armênios, que viam na modernização do país, uma chance de relações mais igualitárias com a maioria muçulmana, e o fim dos entraves o seu progresso social e econômico numa sociedade que se complexificava, e que precisa de reforma urgente, para não ‘cair de podre’. Entretanto o movimento dos jovens turcos tinha problemas:
         a) Não era homogêneo, dividindo portanto em facções com visões diferentes.
         b) Procurava copiar a experiência burguesa-capitalista do Ocidente, em uma realidade bem diferente, sem aquilatar bem o que deveria ser conservado e o que deveria ser descartado, criando uma espécie de Frankenstein político-social, muito avançado em algumas coisas e muito atrasado em outras, que quase destruiu a todos.
         c) A enorme dependência do movimento às forças armadas, e o seu caráter secreto, no estilo da maçonaria, o que denunciava o seu caráter golpista e ditatorial.
         Chegados ao poder em 1908, os Jovens Turcos começaram a implementar as suas reformas, e, de fato, algumas foram benéficas e modernizadoras, como, por exemplo, obrigar o sultão a cumprir a constituição liberal de 1876. De fato, era uma modernização burguesa-liberal que, naquele tempo também queria dizer uma coisa: qualquer minoria que se torne obstáculo ao ‘progresso’, na visão da maioria, deve ser atropelada, para o bem dessa maioria, agravada pela propenção à violência em uma sociedade ainda com ranços de despotismo e tribalismo arcaicos.
         Em 1909, após uma tentativa de golpe do sultão, os Jovens Turcos depõem a Abdul Hamid II. Com a deposição do sultão de fato, o país ganhou um sultão formal, Mehmed V, e passou a ser governado, de fato, por um triunvirato formado pelo Ministro do Interior, Talat Paxá, o da Guerra, Enver Ismail (Enver Paxá) e o da Marinha Djemal Paxá – os “Três Paxás” – vinculados ao Comitè de União e Progresso, a facção mais nacionalista dos Jovens Turcos, que aproximaram a Turquia ainda mais da Alemanha, e ao lado desta entraram na Primeira Guerra Mundial.
Foram eles, os principais mentores do genocídio armênio de 1915.

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O enganador: oriundo de família abastada, Talaat Paxá, recebe formação esmerada, ocidentalizante, entrando para a franco-maçonaria turca, da qual se tornará Grão-Mestre, onde ganha gosto para reuniões secretas e intentos encobertos. Como Ministro do Interior e membro da trinca que governava, de fato, o país, de 1909 a 1918, coube a ele a maior parte das iniciativas de logística e execução, que levaram ao genocídio de 1915-1918. Enquanto este estava em andamento, era ele quem vinha a público tranquilizar autoridades estrangeiras e a opinião publica internacional, ora garantindo que nada estava ocorrendo, ora justificando qualquer massacre que vazasse, a pretexto que era fruto do ódio comum duas etnias, quando não dizia que eram os armênios que atacavam os turcos – houve casos em que armênios feridos, ou mortos, foram apresentados a representantes estrangeiros como sendo turcos muçulmanos. Talat Paxá foi assassinado, em março de 1921, em Berlim, pelas mãos de um armênio vinculado a uma organização secreta, criada eliminar os autores do genocidio, depois que se viu que nada seria feito contra eles. Na República Turca, ele é tratado como um herói, sepultado no imponente Monumento da Liberdade, em Istambul, e uma importante rodovia foi inaugurada com o seu nome.

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O incompetente sanguinário: oriundo da classe média, Djemal Paxá ingressou na carreira militar e ganhou os mais elevados postos, graças à sua adesão aos  Jovens Turcos. Durante a guerra ele ficou famoso por três coisas: a forma cruel com que reprimiu todas as revoltas contra o domínio turco, sendo conhecido, pelos árabes, como “semeador sangrento”; as derrotas esmagadoras que sofreu, e que desmoralizaram generalato turco, a ponto de os alemães assumirem o comando das principais tropas do país – a maior vitória dos turcos na guerra, Galipoli, em 1916, foi conseguida sob comando alemão; e às negociações secretas que travou com os aliados, já em 1915, quando viu que a guerra se encaminhava para um impasse. Ou seja, um traidor. No fim da guerra ele fugiu, com outros, para a Alemanha e a Suíça. O braço dos vingadores armênios o alcançou, em julho de 1922, em Tifflis, na Georgia. Nem os turcos o aguentaram, e ele ficou fopra do Monumento da Liberdade

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O dissimulado: filho de uma família rica e importante, ele fez boa parte de sua formação militar na Alemanha, onde aprendeu a admirar o belicismo típico desse país, nessa fase da sua história. Coube a ele dar o pretexto para o genocídio armênio, ao alegar, falsamente, que a estrondosa derrota turca em Sarikamish se deveu à traição de armênios. Como Djemal, em diversas oportunidades ele deu mostras de não estar preparado para a carreira militar, com graves prejuízos à condução da guerra pelo seu país, e assim que a Turquia foi derrotada ele emigrou para a Rússia, onde fingiu estar ao lado dos comunistas, na guerra civil que se seguiu à revolução russa de 1917, propondo-se a apoiar os bolcheviques para conquistar as populações de fala turca do império russo. Porém, mais tarde, passou para o lado oposto, tentando justamente levantar essas populações contra os revolucionários, e foi por eles mortos em uma batalha acontecida perto de Dushanbe, capital no Tajikistão, quando suas tropas foram pegas de surpresa, em 1922. Em 1996, seu corpo foi trasladado para o Monumento da Liberdade.   


O Genocídio de 1915
        
         Hà informações que em 1910, num encontro ocorrido em Salônica, de 31 de agosto a 14 de setembro, a cúpula do Comitê de União e Progresso, na pessoa de Talat Paxá teria feito a seguinte declaração: “Em virtude dos direitos outorgados pela Constituição [a de 1876, que os Jovens Turcos haviam feito o sultão jurar], se estabeleceu a igualdade entre cristãos e muçulmanos... mas esse é um, ideal irrealizável. Ante a Sharia [tradição islâmica], ante nossa história e os sentimentos de centenas de milhares de nossos irmãos muçulmanos, os cristãos se comprazem em opor-se aos nossos intentos de otomanização e representam uma muralha intransponível para a igualdade jurídica [só possível, na visão dele, entre os que têm a mesma religião, logos eles, que propunham libertar o Estado e a sociedade civil da tutela estrita da religião]... Portanto não pode haver uma verdadeira igualdade, enquanto não otomanizarmos o Império... Hoje, só nos resta um meio: aniquilá-los [aos povos cristãos] pela força das armas... [conclusão] Adotar uma política centralizadora e impor o panturquismo, recorrendo, caso necessário, ao extermínio dos dissidentes” (Ohanian, Pacual; La Cuestión Armenia y las relaciones internacionales (1897-1914); tomo 2; Cuchara de Hierro; Buenos Aires; 1982; pg 258). Estava plenamente justificadao e esboçado o futuro genocídio; só faltava um pretexto.
         Com o início da Primeira Guerra Mundial, reiniciaram-se as hostilidades entre turcos e russos, tanto no Mar negro como no Cáucaso, onde vários grupos de voluntários armênios se agregaram, tanto ao exército turco como ao russo. No final de 1914, um grande exército turco foi enviado para retomar vários territórios perdidos na guerra de 1877-78, e repelir os russos que avançavam no Cáucaso. Ignorando o conselho de experientes assessores alemães, o general Enver Paxá, atirou suas tropas desordenadamente contra os russos, colhendo, em 4 de janeiro de 1915, uma das mais acachapantes derrotas da histórias do exército turco. Enver, porém, não se dá por ‘vencido’, e, chegando a Istambul, faz espalhar a notícia de que a derrota só acontecera por causa da traição generalizada dos armênios. Esse era o pretexto ansiado. E assim foi-se criando, por meio dos órgãos de imprensa, alimentados por informes falsos e alarmistas, um clima anti-armenio, intoxicante, no seio da população.
         Gradualmente o governo começa a mobilizar as forças irregulares de tribos curdas e circassianas, além de voluntários turcos, açulados pela autorização de saquear impunemente a grande riqueza dos armênios, além de abusar sem receio de suas mulheres e crianças, sendo inclusive adicionada a essas forças uma outra, composta por uns 12 mil perigosos presos comuns, libertados só para isso. O massacre teve início no dia 24 de abril, com o aprisionamento, em Istambul, da mais ilustre elite intelectual armênia, o indício mais certo de genocídio, seguido de diversas outras prisões que só se justificariam num quadro de genocídio premeditado. Ao todo foram 196 escritores, 168 pintores, 575 músicos, compositores e bailarinos, 176 professores, 160 advogados, 336 médicos, 62 arquitetos, 64 atores, etc. Eles foram levados para prisões onde sofreram tortura diversas e estupros, sendo sumariamente julgados e excutados por fuzilamento, decapitação, degola, etc. A partir daí foi uma bestialidade só.
         Não vou entrar em detalhes sobre as diversas etapas e fatos isolados do genocídio, já há muitos dados sobre isso na Internet, mas de uma maneira geral podemos dizer que carecia aos turcos os meios técnicos e uma cultura industrialista avançada o bastante para dar um aspecto mais asséptico e industrial, à matança, como os nazistas fizeram na Segunda Guerra, com os seus prisioneiros. O genocídio armênio foi artesanal, fruto de uma mobilização nacional, e por isso abundam, escandalosdamente, testemunhos e fotos, absurdas, impressionantes. Mais uma vez recomendo a Internet.
Entre os métodos de matança coletiva um dos mais usados era reunir a população de uma vila em um prédio grande, por exemplo uma igreja, e tocar fogo em todos (homens, mulheres e crianças). Há relato de militares turcos que, muitos bandidos, soltos para o massacre, enlouqueceram após assistir a esse tipo de execução tão bárbara.
Outro método, usado principalmente contra mulheres e crianças, era lotar um barco com eles e ir avançar até uma boa distância da praia ou da margem de um rio, e atirá-los às águas.
Havia o uso de agentes químicos, aplicado principalmente por médicos turcos. Há informes de que muitas crianças foram mortas com a aplicação de morfina na veia, como teria acontecido no Hospital do Crescente Vermelho de Trebizonda. Crianças também teriam sido mortas nesse mesmo hospital com o uso de gás tóxico. Por fim havia a inoculação de vírus de febre tifoide – um caso notável foi o do doutor Tevfik Rüstü Aras, que ficou famoso por fornecer atestados falsos para as mortes de crianças, e de ser muito eficiente na tarefa de destruir os cadáveres por meio de agentes químicos. Por essa ação ele foi nomeado membro da Alta Comissão de Saúde, em 1918; nesse mesmo ano casou com uma jornalista, filha de família riquíssima; em 1920 se torna um dos fundadores do Partido Comunista Turco; e mais tarde ministro das Relações Exteriores de 1925 a 38. Morreu em 1972, em Istambul
Houve também a obrigação repentina de numerosas populações armênias, em diversas aldeias e cidades, de abandonar os seus lares, que foram imediatametne saqueados e posteriormente vendidos a turcos, saindo só com o que podiam carregar, para serem transferidos para outras regiões do Império. Essa medida de deportação e “confisco” foi, inclusive, aprovada pelo parlamento turco, em 13 de setembro de 1915. A maior parte dos armênios foi remetida para o escaldante deserto da Síria, numa siutação triplamente maldosa
a) Não se tratou de propriciar o mínimo de condições para a viagem, feita a pé ou em comboios de trens apropriados para animais. Esses deslocamentos foram levados a efeito, de propósito, em pleno inverso, que é rigoroso nessa região, sem que os deportados tivessem o menor assistência, antes o contrário. Mulheres, crianças e velhos, morreram como moscas de frio, fome, estresse e doenças do aparelho respiratório. Durante as marchas, os soldados turcos que escoltavam os deportados, não só não os protegerem do ataque de grupos islâmicos empedernidos, turcos ou de outra nacionalidade, como participaram ativamente dos roubos, estupros e assassinatos que se cometeram. Essas eram as “Marchas da Fome”.
b) Não foi preparada nenhuma estrutura para receber os imigrantes. Foram simplesmente abandonados ao deserto. Milhares de corpos de armênios ficaram espalhados pelas estradas. Os sobreviventes apresentavam um estado de inanição extrema.
c) Essa população, há milênios, mora em reigiões montanhosas frias, e estavam fisicamente muito adpatados ao frio. Expostos ao calor da Síria o organismo de muitos colapsou, situação essa agravada pela falta de comida, água e cuidados médicos. Quem não morreu por causa desses gravames foi trucidada pelos agentes do governo turco, e por bandidos que agiam em seu nome.
Além disso foi aberta uma rede de campos de extermínio, onde populações armênias eram internados e induzidas à morte por maus tratos, fome, sede e falta de cuidados médicos. O seu chefe geral era Sukru Kaya, braço direito de Talat Paxá, que pregava abertametne o extermínio dos armênios, usando um termo que ficará famoso, 30 anos mais tarde, por causa dos nazistas: “solução final”. Sukru fugirá do julgamento e dos esqudrões armênios e se tornará ministro de trâs pastas diferentes, entre 1924 e 1938, e morrerá em 1959, na Turquia.
E quais eram as alternativas ao massacre? As crianças de doze anos deveriam ser entregues a conventos de monges muçulmanos, os dervixes, para serem educadas na religião islâmica estrita; as mulheres poderiam se salvar desde que se dispusessem a se oferecer como escravas sexuais em praça pública; as famílias que se convertessem em massa ao islamismo também seriam poupadas.

Paródia Negacionista

         Com o fim da guerra, os turcos mais inteligentes puderam ver a que as palavras dos Jovens Turcos não se coadunavam com os efeitos de sua permanência no poder, que foram vítimas de propaganda enganosa. O país fora derrotado na guerra, e o que restava do império estava perdido. No embalo do caos político, que se seguiu à derrota turca, e o espírito de revanche tanto das potências aliadas como do último dos sultões, foi convocada uma corte marcial, em 1919, para julgar os culpados do genocídio, já amplamente denunciado e conhecido.
         Foi uma “encenação”. As provas eram abundantes, e até pena de morte foi propalada contra os três paxás, e outros importantes funcionários, mas nada acontecia, principalmente por causa do avanço das forças republicanas de Kemal Ataturk, e as protelações demarches se tornaram tão escandalosas, que tropas do inglesas foram até as prisões de Ancara, e tomaram, à força, a custodia dos principais envolvidos, levando-os para a ilha de Malta, a fim de submetê-los a um julgamento internacional, minimamente sério. Mas foi em vão, o governo republicano de Kemal Ataturk, um simpatizante dos Jovens Turcos, agora no poder,  simplesmente destruiu as provas e inviabilizou a julgamento. Sem as provas e temendo a expansão do comunismo na Rússia, os ingleses preferiram libertar os genocidas.
Esses homens, então, retornaram à Turquia, onde foram tratados como herois e beneméritos, e a eles entregue o comando cultural da nova República da Turquia, firmemente baseada na negação absoluta de que tenha havido um genocídio, sequer uma matança covarde e generalizada, em seu território. Eis o que diz um trecho do bem artigo sobre o genocídio armênio, na Wikipedia francesa: “nos primeiros anos da república turca [fundada com a queda do último sultão, por Kemal Ataturk], os exilados de Malta são nomeados a postos governamentais, como Primeiros-ministros... ministros... governadores, membros do parlamento, generais das forças armadas. Eles se tornaram o núcleo da elite intelectual turca, e seus descendentes ocupam os mais altos postos, até os dias de hoje”. Precisa-se dizer mais.  .
         Atualmente, na Turquia do Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, a simples menção ao genocído armênio, pode acarretar pena de prisão por até quinze anos, quando não acontece coisa pior, como quando do assassinato de Hrant Dink, editor de um jornal armênio, em 2007, um lutador pelo reconhecimento do genocidio. Os tribunais do país estão proibidos, por lei, de receber qualquer demanda a respeito do genocídio. Em 2014, não podendo mais deter a pressão mundial, sempre crescente em prol do reconhecimento desse genocídio, Erdogan mandou uma mensagem de condolências ao governo da Armênia, algo ainda meramente protocolar.
         Gradualmente os intelectuais e a classe média turcos forçam uma mudança nessa atitude absurda, como a escritora turca Fethie Çetin, que descobriu ser sua avó uma sobevivente desse genocídio, havendo ainda a suspeita de que a filha adotiva de Ataturk, Sabiha Goksen, um modelo para a nova mulher turca, seria de ascendência armênia, filha de uma das sobreviventes do holocausto.
          Um grande golpe para a versão turca do episódio, entretanto, veio de seus mais fieis colaboradores e executores diretos do genocídio: os curdos, um povo muçulmano, que hoje sofre violências dos turcos em sua luta por autonomia. Pois bem, várias de suas organizações e personalidades mais conhecidos vieram a público reconhecer e denunciar a existencia do genocidio, além se desculpar por sua participação nele.
         Existe na Wikipedia em inglês uma página extensa, enumerando testemunhas e transcrevendo parte de suas impressões sobre esse genocidio, no seguinte endereço: http://en.wikipedia.org/wiki/Witnesses_and_testimonies_of_the_Armenian_Genocide
         Os turcos, tão zelosos em praticar, e depois esconder, esse genocídio, seguem, entretanto, marcados por esse... genocídio. Fechadas as portas da União Europeia, inclusive por causa de sua política negacionista, o país voltou-se para o Oriente Médio, visando disputar o controle de uma região então rica e estratégica, com a Arabia Saudita e o Iran, mas agora eles sabem que a única coisa que lhes restará, se vencerem essa disputa, será uma espantosa massa falida, deixada após a passagem do grupo genocida Estado Islâmico, cem anos após os turcos inaugurarem esse tipo de violência na região, só que agora voltada contra os próprios muçulmanos. É como aquela bruxa que não existe, mas vive aparecendo

http://ivarfjeld.files.wordpress.com/2013/02/obama-netanyahu-2.jpg
http://www.4thmedia.org/

         O cúmulo da hipocrisia ou a certeza de outros genocidios: não existem países mais zelosos pelo reconhecimento do genocídio judeu, que Estados Unidos e Israel. Quem disser que não houve genocídio judeu na Segunda Guerra é imediatamente taxado pelos representantes destes países como terrorista ou antissemita. Pois bem, todos os dois desconhecem oficialmente o genocídio armênio. Os Estados Unidos, assim como a Inglaterra, usam da Turquia, antes para conter o comunismo e agora para conter a Rússia, e sustentam essa imoralidade, apesar de a maioria esmagadora dos estados americanos, 44, reconhecerem e deplorarem esse massacre. O cinismo oficial dos Estados Unidos é tamanho, que a ex-secretparia de estado, Hillary Clinton, chegou a firmar que a condenação do massacre armênio implicaria nem constrangimento ao direito de expressão daqueles que o negam (http://www.firstthings.com/web-exclusives/2015/04/when-we-cared).
Israel, por sua vez, mantém ótimas relações comerciais com os turcos, portanto...


http://msalx.veja.abril.com.br/2014/08/08/1958/pe6Cx/ira-lula-ahmadinejad-erdogan-afp-620-original.jpeg?1402458862
http://veja.abril.com.br/

         Tudo é motivo de alegria na cúpula do negacionismo. Da esquerda para direita: Lula (Brasil), armênios; Ahmadinejad (Iran), armênios e judeus; Tayyip Erdogan (Turquia), armênios. A posição do Brasil é esdrúxula, como em outras coisas mais, pois o Mercosul reconhece o genocídio. Dos estados brasileiros, as assembleias legislativas de apenas três reconhecem o genocídio.